sábado, fevereiro 04, 2006

Dez Aforismos de Joel Silveira

Recomendo a leitura de "Guerrilha Noturna" (Editora Record, 1994), do impagável Joel Silveira. Sim, aquele mesmo que foi correspondente na Itália, durante a II Guerra Mundial. Quando escreveu a obra Joel estava  na idade em que podia falar tudo, sem censuras e auto censuras. Para onde apontava a sua pena, o alvo sempre era certeiro. A fina ironia, também, era cortante como navalha, afiada. Do livro, retirei dez pérolas que repasso aos meus eventuais leitores. Deliciem-se:

Aforismo 27

Levei anos e anos para aprender a dizer não, mas aprendi. Agora o não me sai com a maior facilidade, sem qualquer inibição ou constrangimento.
Fulano, um espertalhão que conheço desde o começo dos tempos, e a quem já concedi, complacentemente, milhares de sins, me telefona:
- Você poderia...
E antes que ele continue, brado:
- NÃO!

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Aforismo 67

"Há políticos que ignoram a realidade. Em compensação, a realidade também os ignora." - É de Karl Marx, que muita gente apressada imagina ter enterrado de vez.

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Aforismo 132

Informa, em tom solene, o nobre senador: "Na Democracia, todos tem direito a discutir as suas idéias".
Que os organismos internacionais, a começar pela ONU e pela Corte de Haia, e mais os governos do mundo inteiro, sejam cientificados com a maior urgência da espantosa revelação. Confesso que a mim ela ocasionou febre de quarenta graus, tosse convulsiva e batidas aceleradas no coração.

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Aforismo 179

A profissão de jornalista tem uma desvantagem capital, entre outras menores: obriga o jornalista a conhecer toda espécie de pessoa, gente demais. E conhecer gente demais implica decepção demais, desencanto demais - e, até, o que é ainda mais incômodo, enjôo demais.

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Aforismo 206

Aquele jornalista (ou "cientista político", como prefere ser chamado) é tão suficiente que se alguém lhe disser que andam falando em seu nome para a sucessão presidencial, ele, em vez de rir da pilhéria, será capaz de responder, enfático e pomposo:
- São idéias dos meus amigos... De qualquer maneira, não tomarei qualquer atitude sem antes consultar as minhas bases no Olimpo.

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Aforismo 322

Slogan da emissora de televisão, famosa pela péssima qualidade dos seus programas, todos pífios: "Obrigado por assistir à nossa programação".
Deviam acrescentar: "E nossas desculpas."

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Aforismo 385

No Brasil destes dias, brinca-se de tudo e com tudo: brinca-se de fazer prosa, brinca-se de fazer poesia, brinca-se de pintar, de fazer cinema e teatro. Brinca-se com a vida e com a morte.
Somos, hoje, o país do divertissement subvencionado e descompromissado, dos modismos de verão e das unanimidades aleatórias, impostas pelas conveniências da mídia.

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Aforismo 429

Temos que reconhecer que, apesar de tudo, o Brasil nos oferece algumas compensações. Uma delas é a facilidade com que somos esquecidos, questão da noite para o dia. Para os patifes, então, isso é uma extraordinária e confortável conveniência.

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Aforismo 440

A direita é sempre burra, pragmática e esperta. A esquerda, brilhante, onírica e desastrada. Esta é a diferença. O resto é dialética - e dialética pequena, de mesa de bar.