quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Saudades de JK


Corro o risco - calculado - de ser tachado de saudosista. Não importo. Quando nasci (1960) ele já havia deixado a Presidência da República. Mas as suas realizações permanceram. À época, o país dava os primeiros passos rumo à industrialização. Brasília brotava no Planalto Central. A Bossa Nova corria o mundo.

O Brasil da "Era JK" era o país da esperança, do sorriso largo, da democracia, da tolerância e da modernização. O presidente era o símbolo do empreendedorismo, do dinamismo e da vocação para o progresso. JK tinha um sonho. Com determinação, partiu para realizá-lo. Era um visionário. O seu Plano de Metas foi isso. Mas ele não ficou apenas no campo das boas intenções.

Hoje, temos a democracia e a industrialização. Contrapondo-se a tudo isso, convivemos com uma brutal desigualdade social que envergonha todas as consciências republicanas. A nossa distribuição de renda é uma das mais injustas do mundo. E o que é pior: o problema tende a se aprofundar. No horizonte, a curto e médio prazos, não se vislumbra um projeto modernizador que reverta esta situação.

Falta-nos um projeto de governo que nos devolva a confiança, a esperança no porvir. O que temos, ofertado por diferentes matizes ideológicas, são projetos de poder. Para mantê-lo ou alcançá-lo vale tudo? Mentir, trapacear, roubar. Será que são estes os ingredientes do poder? Será que os fins justificam os meios? Ou será que estou sendo apenas ingênuo com estes questionamentos?

O que sei é que falta-nos um líder com as qualidades de JK, que consiga sintetizar os anseios mais profundos da nação e do seu povo. Que consiga ser, a um só tempo, hábil negociador, carismático, democrático, arrojado e realizador. A nação deseja um líder com estas qualidades.
O país anseia um novo JK.

Um homem de visão, determinado; ao mesmo tempo, racional e emotivo; ao mesmo tempo, enérgico e sorridente; ao mesmo tempo, trabalhador e festeiro (para os jovens, baladeiro); ao mesmo tempo, com a cabeça nas nuvens e os pés no chão.

O país tem saudades de JK. Que os ideais do "Presidente Bossa Nova" inspire e ilumine os políticos que vão concorrer nas eleições deste ano. A memória de JK merece. O Brasil, que ele tanto amava, também merece.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

A Dengue é Manchete


Justiça seja feita. O jornal O Popular, o principal de Goiânia, em sua edição de hoje, redimiu a imprensa do Estado na cobertura da dengue. O matutino manchetou o assunto na sua chamada principal de capa. Colocou, ainda, uma retranca - Epidemia.

A matéria, assinada pela jornalista Isabel Czepak, informa que existem 600 pontos críticos na cidade (a matéria deixa claro que não são focos) que podem servir de criadouro do mosquito da dengue. A reportagem cita dados, mas não fornece as fontes.

Diz, por exemplo, que já são cerca de 3 mil casos "suspeitos", em Goiânia e Aparecida de Goiânia. Mas quem forneceu esta informação? Não se sabe. E a repórter não cita a fonte responsável por estes números. Ou seja, continuamos (a população, a sociedade) sem informações precisas sobre a epidemia.

No texto da Isabel está escrito o seguinte: "As ações do poder público para tentar conter o avanço da dengue na capital já mobilizam certa de 700 profissionais da Prefeitura e do Estado". Novamente esta informação não é acompanhada de uma fonte. E se não é, o jornal a assume como verdadeira. O leitor menos crítico também.

Não resta dúvida que a matéria publicada com destaque no jornal O Popular chama a atenção para a doença. Mas os números citados não são convincentes para tranquilizar a população. Tudo leva a crer que a situação é bem mais grave que a divulgada na matéria.

Como disse anteriormente: será necessária uma cobrança mais enérgica da sociedade sobre o poder público, sobre os governos. A verdade, por mais crua que seja, tem que ser divulgada. A desconfiança, motivada por informações insuficientes, continua dando a tônica nessa questão da mais alta gravidade.

domingo, fevereiro 12, 2006

Dengue: Medo e Desinformação


Neste exato momento, muita gente em Goiânia se pergunta: existe uma epidemia de dengue na cidade? Que existe apreensão, ainda que abafada, sufocada, é fácil constatar. Qual a real dimensão deste problema que envolve a saúde pública? Não se sabe.

Os meios de comunicação da cidade só divulgam uma pálida sombra do que acontece. Não retratam com fidelidade esta questão. As autoridades (leia-se: governo), que deveriam cuidar do problema (já que se trata de saúde pública), o negligenciam.

E por que agem dessa forma? Matar o mosquito transmissor da doença (Aedes aegypti ou a sua larva) não rende voto. Portanto, não é atrativo para os adeptos do populismo. Opta-se por fazer asfalto. Este sim rende inauguração, festa, visibilidade. Em síntese: dá voto.

Ontem à noite conversei com dois importantes empresários da cidade. Um deles testemunhou: "quatro funcionários meus morreram vítimas da dengue". E a doença não ataca apenas pobres. Parentes do empresário estão infectados. "A dengue é uma doença democrática", observa com ironia.

Ele disse que no condomínio fechado onde mora foram constatados focos do mosquito. As larvas se desenvolvem nas piscinas. Elas encontram ambiente propício em águas paradas, limpas e não tratadas com cloro. Resumindo: a doença não escolhe classe social.

Outro empresário com quem conversei confirmou: vários empregados da sua empresa contraíram a doença. Ele comenta que o problema está por toda parte. Revela que um amigo infectado pelo mosquito perdeu oito quilos após uma semana de internação.

Romerito, jogador do Goiás Esporte Clube, contraiu a doença. Ele estava ameaçado de não viajar ao Chile, para participar do jogo válido pela Taça Libertadores da América. Isto só para ficar no exemplo de uma pessoa famosa.

Dentro dos órgãos de saúde, informalmente, os profissionais da área confirmam: a doença não está sendo divulgada em sua real dimensão. É para que a população não fique alarmada? É pouco provável. Todos temos direito à informação. Ter consciência do problema contribui para a prevenção.

O curioso nisso tudo é que, ao lado da omissão do poder público, nota-se uma certa resignação da sociedade. O assunto faz parte das rodas sociais. Mas não existe uma efetiva cobrança para a sua solução. O poder público não se sente suficientemente pressionado para agir com mais determinação.

Os jornais até que falam da doença. Só que os números reais não aparecem. Existe quase que uma pacto de silêncio. Enquanto isso, a chamada "doença democrática" avança fazendo vítimas. E o que é pior: ceifando vidas.

sábado, fevereiro 04, 2006

O Mestre do Cosme Velho



Machado de Assis é um ícone da literatura. Frequentemente tachado de negativista, sua veia humorística é pouco difundida. Por isso mesmo pouco conhecida. Mas a verdade é que possui tiradas extremamente refinadas. O escritor consegue, a um só tempo, ser sutil, irônico e sarcástico. Confira alguns exemplos:

"(...) a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit."
Memórias póstumas de Brás Cubas

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"Esta sarna de escrever, quando pega aos cinquenta anos, não desprega mais. Na mocidade é possível curar-se um homem dela (...)"
Dom Casmurro

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"Os sonhos acabam ou alteram-se, enquanto os maus maridos podem viver muito."
Quincas Borba

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"(...) a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que 'a senhora saiu', quando a senhora não quer falar a ninguém."
Dom Casmurro

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"Tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão."
Quincas Borba

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"(...) o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã."
Memórias póstumas de Brás Cubas

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"Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida."
Quincas Borba

Dez Aforismos de Joel Silveira

Recomendo a leitura de "Guerrilha Noturna" (Editora Record, 1994), do impagável Joel Silveira. Sim, aquele mesmo que foi correspondente na Itália, durante a II Guerra Mundial. Quando escreveu a obra Joel estava  na idade em que podia falar tudo, sem censuras e auto censuras. Para onde apontava a sua pena, o alvo sempre era certeiro. A fina ironia, também, era cortante como navalha, afiada. Do livro, retirei dez pérolas que repasso aos meus eventuais leitores. Deliciem-se:

Aforismo 27

Levei anos e anos para aprender a dizer não, mas aprendi. Agora o não me sai com a maior facilidade, sem qualquer inibição ou constrangimento.
Fulano, um espertalhão que conheço desde o começo dos tempos, e a quem já concedi, complacentemente, milhares de sins, me telefona:
- Você poderia...
E antes que ele continue, brado:
- NÃO!

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Aforismo 67

"Há políticos que ignoram a realidade. Em compensação, a realidade também os ignora." - É de Karl Marx, que muita gente apressada imagina ter enterrado de vez.

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Aforismo 132

Informa, em tom solene, o nobre senador: "Na Democracia, todos tem direito a discutir as suas idéias".
Que os organismos internacionais, a começar pela ONU e pela Corte de Haia, e mais os governos do mundo inteiro, sejam cientificados com a maior urgência da espantosa revelação. Confesso que a mim ela ocasionou febre de quarenta graus, tosse convulsiva e batidas aceleradas no coração.

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Aforismo 179

A profissão de jornalista tem uma desvantagem capital, entre outras menores: obriga o jornalista a conhecer toda espécie de pessoa, gente demais. E conhecer gente demais implica decepção demais, desencanto demais - e, até, o que é ainda mais incômodo, enjôo demais.

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Aforismo 206

Aquele jornalista (ou "cientista político", como prefere ser chamado) é tão suficiente que se alguém lhe disser que andam falando em seu nome para a sucessão presidencial, ele, em vez de rir da pilhéria, será capaz de responder, enfático e pomposo:
- São idéias dos meus amigos... De qualquer maneira, não tomarei qualquer atitude sem antes consultar as minhas bases no Olimpo.

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Aforismo 322

Slogan da emissora de televisão, famosa pela péssima qualidade dos seus programas, todos pífios: "Obrigado por assistir à nossa programação".
Deviam acrescentar: "E nossas desculpas."

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Aforismo 385

No Brasil destes dias, brinca-se de tudo e com tudo: brinca-se de fazer prosa, brinca-se de fazer poesia, brinca-se de pintar, de fazer cinema e teatro. Brinca-se com a vida e com a morte.
Somos, hoje, o país do divertissement subvencionado e descompromissado, dos modismos de verão e das unanimidades aleatórias, impostas pelas conveniências da mídia.

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Aforismo 429

Temos que reconhecer que, apesar de tudo, o Brasil nos oferece algumas compensações. Uma delas é a facilidade com que somos esquecidos, questão da noite para o dia. Para os patifes, então, isso é uma extraordinária e confortável conveniência.

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Aforismo 440

A direita é sempre burra, pragmática e esperta. A esquerda, brilhante, onírica e desastrada. Esta é a diferença. O resto é dialética - e dialética pequena, de mesa de bar.