A Festa da Memória

Sei que não é o caso de romantizar épocas, lugares e, muito menos, pessoas. Sei que a memória de tempos idos muitas vezes nos trai. Mas sei, também, que ela possui os seus próprios escaninhos. Fixa-se (devidamente guardado) o essencial, o fascinante e, claro, o trágico. Somos o amálgama de todos esses tecidos.
No laboratório da vida, fecudam-se histórias entrecruzadas. Passeiam por remansos, rios e córregos. Terminam por desaguar em oceanos de noites e dias, de alegrias e tristezas. Assim, fabrica-se matéria-prima para as crônicas do cotidiano. Vê-se, através delas, o universo pelo buraco da fechadura.
As histórias saltam da memória. Passeiam por terras distantes, culturas distintas, gentes diversas. No balanço dos anos, das décadas, ressurge um tempo compartido, experiências somadas. Sente-se ainda fresca nas retinas as tochas das utopias coletivas.
Essas observações (ou seriam divagações?) surgem a propósito de uma época - específica. Melhor ainda: de uma turma com pouco mais de 40 jovens que o destino uniu no ano de 1979. Éramos calouros, na vida e no curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás.
Vivíamos um caldeirão político e cultural. Mas não havia liberdades políticas. Época dos chamados "anos de chumbo". Os presos políticos começavam a ser soltos, os exilados a retornar. A UNE estava sendo reconstruída. As greves operárias pipocavam pelo país. O "entulho autoritário", com destaque para o AI-5, ainda não tinha sido revogado.
Foi nesse ambiente que entramos na universidade. Aquele bando de jovens identificava-se com ideais nobres: com a coletividade, com a justiça social, com a democracia. Alguns de nós logo se definiu por uma clara posição de esquerda.
Predominava um acirrado debate político, tanto em sala de aula como nos corredores das faculdades. Éramos compelidos a abraçar uma posição, um partido. Afinal, ser chamado de "alienado" nos soava como um palavrão.
O idealismo a que me refiro não era interesseiro. Antes, era um sentimento próprio da juventude, que anseia por mudanças, que deseja romper estruturas arcaicas, que necessita fazer com que sua voz seja ouvida. Resumindo: é um sentimento de auto-afirmação.
Revolver essas questões é como fazer uma viagem ao tempo. Voltar às escadarias do ICHL (atual Facomb), passear pelas salas de aula, pelos laboratórios (de Rádio e TV e fotografia), pela Rádio Universitária e pelos auditórios, onde aconteciam acalorados debates.
Vivenciamos, é certo, um rico período da história de Goiás e do Brasil. Estávamos deixando para trás o autoritarismo. Sopravam em nossas faces juvenis os ventos benfazejos da democracia. Mas havia um longo caminho a trilhar. A democracia deveria se firmar. E nós, tínhamos que cumprir todo o ritual acadêmico, receber o diploma para ingressar no mercado de trabalho.
À época, o mesmo dilema de hoje: haveria emprego para tantos novos profissionais? Logo sentimos o primeiro baque. Em 1983, o Diário da Manhã fechou. Dezenas de jornalistas desempregados. Isso provocou uma "diáspora" na categoria.
Essa crise fez com que muitos deixassem Goiás. Jovens formados partiram em busca de novos mercados. Uma parte expressiva mudou-se para Brasília. Alguns para cidades como Cuiabá, Fortaleza e, posteriormente, Palmas. Mas houve quem buscasse outros países: Holanda e EUA.
Os que ficaram em Goiânia ocupam espaço nos veículos de comunicação da cidade. Alguns abraçaram outras áreas: são professores, políticos, empresários, entre outras profissões.
Essa turma de 79 tinha características marcantes. Isso chamava atenção. Havia, claramente, um aguçado espírito de união, de companheirismo, de grupo, difícil de se encontrar, mesmo naquela época. E isso sobreviveu ao passar do tempo.
Quando se encontram, prevalece nessas pessoas forte sentimento de amizade. Muitos da turma, mesmo morando em cidades distantes, mantêm correspondência, se falam com frequência. Os laços não se romperam.
Prova disso foi um acontecimento recente. No dia 9 de abril 14 integrantes da turma reuniram-se, durante confraternização, em Brasília. Foi quando surgiu a idéia de se promover outro encontro, se possível maior, desta feita em Goiânia.
Será, sem dúvida, um momento especial para rever amigos e amigas. Sobretudo, será uma ocasião para brindar o prazer da vida. E, também, para festejar o tempo presente. Nada impede que façamos uma "Festa da Memória".
Basta apenas seguir o que disse o jornalista e escritor Eduardo Galeano: "A memória guardará o que vale a pena. A memória sabe de mim mais do que eu; e ela não perde o que merece ser salvo". Acho que nos salvamos.
