domingo, março 26, 2006

A Dança da Pizza


Este foi o título do artigo do professor e doutor em comunicação Carlos Chaparro. O texto foi publicado no portal Comunique-se (24/03/06). O autor comenta a atitude sarcástica da deputada federal Ângela Guadagnin (PT-SP), no episódio de absolvição de mensaleiros no Congresso Nacional.

No artigo, Chaparro falou pela nação. Ele não apenas escreveu um texto brilhante, refletiu com sagacidade o sentimento dos eleitores brasileiros que assistem perplexos o escárnio a que o congresso brasileiro está impingindo ao nosso povo, absolvendo parlamentares confessadamente envolvidos no escândalo do mensalão.

Os volteios da rechonchuda parlamentar no plenário do Congresso Nacional guardam um grande simbolismo. A dança não tem nada de inocente. Também não foi cômica. Antes, soou provocativa. Não foi romântica. Antes, a nobre deputada agiu como porta-bandeira no enredo da pizza.

O menoscabo da deputada só não foi maior do que o indigesto prato que o Congresso Nacional nos serviu. Mas os eleitores brasileiros não vão degluti-lo com tanta facilidade. Afinal, no molho da pizza adicionaram ingredientes como "falta de respeito", "falta de ética", "conchavos", "falta de caráter", "assalto aos cofres públicos", entre outros.

Guardagnin (e seus asseclas) que nos aguardem. As eleições estão próximas. O troco virá no seu devido tempo. Hoje, eles são os pizzaiolos e dançam no "show dos mensaleiros". Os eleitores vão promover uma dança diferente, a dança das cadeiras expulsando-os do salão (Congresso Nacional). Que a eles seja dado apenas o direito de dançar a "valsa do adeus".

sábado, março 18, 2006

Somos Poeira do Tempo



"O tempo é a imagem em movimento
da eternidade imóvel".
Platão


Luiz Carlos Maciel, jornalista , roteirista, diretor de teatro, professor e escritor, é um craque do vernáculo. Definido como guru da contracultura, Maciel foi colaborador do Pasquim e um dos fundadores da edição brasileira da Revista Rolling Stones. Em março de 2003, Maciel escreveu um artigo sobre o tempo, no caderno "Fim de Semana", da Gazeta Mercantil. O texto é ilustrativo do seu talento.

O artigo é um primor. Tanto do ponto de vista estilístico, quanto da precisão da linguaguem; erudito e filosófico. Induz à reflexão. Na epígrafe, cita Caetano Veloso: "Por seres tão inventivo/E pareceres contínuo/Tempo Tempo Tempo Tempo/ És um dos deuses mais lindos". Trata-se da letra da canção "Oração ao Tempo".

Ah, não citei o título do artigo. Chama-se "O Tempo Somós Nós". Este, sem dúvida, é um tema instigante. Sempre povoou o nosso imaginário, desde o início dos tempos, nos primórdios da civilização, quando o homem começou a refletir sobre a sua posição no universo.

Você deve estar se perguntando: por que citar este artigo agora? Por uma razão prosaica. Estava em casa, limpando uma gaveta, quando saltou em minhas mãos o caderno "Fim de Semana", da Gazeta Mercantil. Folheei. Cheguei ao artigo, que ocupa toda a contra-capa. Não resisti. Reli com prazer o texto de Maciel.

Foi então que tive a idéia de transcrever alguns trechos, que considero os mais significativos do artigo, como forma de homenagear o autor. Maciel nasceu no dia 15 de março de 1938, em Porto Alegre (RS) e mora, atualmente, na cidade do Rio de Janeiro.

"O objetivo fundamental da ciência ocidental, em relação ao tempo, foi - e ainda é - medi-lo com objetividade e precisão. O relógico mecânico, inventado no século XIII, obedecia a este propósito. As mudanças que trouxe foram importantes, ele modificou a própria organização da sociedade - e inaugurou uma nova civilização, atenta à passagem do tempo e, portanto, à produtividade e ao desempenho".

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"A concepção comum do tempo o considera uma estrutura tríplice: passado, presente e futuro. Nenhum desses três momentos existe, a rigor. O passado não existe mais; o futuro ainda não existe; o próprio presente é mera passagem abstrata do passado para o presente, sua vigência se reduz ao instante inextenso. Mas se o tempo não existe, por que nos parece tão real, a ponto de falarmos, por exemplo, em ter e não ter tempo? Há um esforço por parte do pensamento humano para conferir realidade ao tempo".

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"(...) O caráter fixo do passado, sua imobilidade, são tão necessários para ancorar o fluxo do tempo, mesmo sem negar o outro mundo da eternidade imóvel, que até mesmo os teólogos não hesitaram em limitar a onipotência de Deus, negando-lhe o poder de modificar o passado. Deus pode tudo, menos desfazer o que já aconteceu. Quanto ao futuro, sabe-se que virá mas não se sabe o que será e em que irá inevitavelmente se transformar. E o presente não cessa de nos escapar, a cada instante; ele perpetuamente aniquila a si próprio. O tempo é relativo e indeterminado".

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"O arco do tempo e a visão indeterminista podem ser menos contraditórios do que parece. Heidegger diz que a posição entre Heráclito e Parmênides não é para valer, pois ambos os filósofos foram igualmente do ser. Ser e devir, o estático e o dinâmico, a identidade e a mutação, etc. São uma só presença. Se assim for, é possível que o tempo que se expressa num arco de interdependência total e o que se manifesta num indeterminismo também total, tanto no passado quanto futuro, sejam um só e o mesmo tempo".

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"Para Heidegger, o ser tem uma história; o tempo o oculta e o desvela. E, ao contrário dos entes, o ser não é uma entidade autônoma, independente das coisas e dos processos. É, portanto, o próprio processo; ser e tempo se confundem. Assim, é forçoso perguntar, como Heidegger, se, afinal de contas, não somos nós próprios o que chamamos de tempo".

terça-feira, março 14, 2006

Capote: Jornalismo e Ética



Capote, o filme, é denso. Baseado na biografia do escritor, não se trata de simples divertimento. É um filme para reflexões sobre jornalismo e a ética da profissão. Por isso, é oportuno e atual.

O autor da obra-prima "A Sangue Frio" almejava - a todo custo- o sucesso, o reconhecimento. Talvez mais que tudo isso: a imortalidade. Ele lutou de maneira alucinada, obcecada, para ser alçado ao panteão dos escritores do século XX.

Para atingir seus objetivos, como revela muito bem o filme, não interessava os meios. Ele passou por cima de convenções, de regras, dos princípios éticos da profissão. Envolveu-se emocionalmente com suas fontes. Mentiu, trapaceou, subornou. Tudo em nome da arte, da trama perfeita, moldada para o seu figurino.

Capote, sem dúvida, é uma personalidade complexa. Por isso, tentar analisar apenas o lado "canalha" do escritor é cair no reducionismo. Filho de mãe álcoolatra, ele adotou o sobrenome (Capote, de origem portuguesa) do padastro.

A obsessão pelo sucesso, pelo reconhecimento público, escondia a sua fragilidade emocional. Era um solitário, narcisista, convivendo com os fantasmas da infância abandonada. Este, possivelmente, um dos principais pontos de identificação com um dos asssassinos da família Clutter (Perry Smith), tão bem representado no filme.

O seu jeito afetado, a sua homossexualidade, tornavam-no uma figura ímpar. Os holofotes voltavam-se para ele nas rodas sociais que gostava de frequentar. Não era um escritor muito prolífico, mesmo assim escreveu dez livros, entre peças de teatro, romances e perfis jornalísticos.

Após o clássico "A Sangue Frio", que concluiu em 1965, revolucionou o jornalismo policial. Ele reivindicava para si a primazia de ter inaugurado um novo gênero literário: o romance de não-ficção. Se não o fez, com certeza escreveu uma das obras mais significativas desta escola, que também ficou conhecida como "novo jornalismo".

Capote, ao narrar um fato que poderia ficar restrito à crônica policial  - o massacre da família Clutter-, em fins de 1959, construiu densos perfis psicológicos. O livro revela, ainda, a face mais sombria do "sonho americano" no pós-guerra. De um lado, seres incompreendidos, revoltados, marginalizados; do outro, a família burguesa, religiosa, conservadora, cumpridora de sua missão social, realizada financeiramente. Como pano de fundo, um país fraturado.

Em "A Sangue Frio", Capote utiliza-se de sua memória prodigiosa - que ele próprio não se cansa de exaltar- para narrar fatos com uma impressionante riqueza de detalhes. Na sua prosa, nada passa, nada falta. A precisão técnica, matemática, cirúrgica, orienta o texto. Só em pesquisa, o livro consumiu um ano e contou com o auxílio da competente escritora Harper Lee.

Não é de espantar que a obra tenha consumido seis anos para ser escrita. Mas isso esgotou o autor. Levou-o à esterilidade literária. De 1965 até a sua morte, em 1984, portanto, quase duas décadas, ele não publicou mais nada. Teve um fim trágico: morreu debilitado pelo álcool e drogas.

Truman Capote, um dos principais ícones da literatura de não-ficcão, deu uma pista sobre o seu destino, ao dizer o seguinte: "Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda a vida a um senhor nobre porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também dá um chicote; e o chicote se destina apenas à auto-flagelação... Estou aqui sozinho na escuridão da minha loucura, sozinho com meu baralho -e, é claro, o chicote que Deus me deu".

sábado, março 11, 2006

Censura à Moda Chinesa


Liberdade de imprensa é uma utopia? Na China, com certeza. O governo local acaba de censurar o blog do jornalista Wang Xiaofeng. Em 2005, o blog foi considerado o melhor escrito em mandarim. O reconhecimento foi do conceituado prêmio BOB (Best of Blogs) concedido pela "Deutsche Welle". O pecado de Wang: postar críticas à política chinesa.

Mas este, naturalmente, não foi um caso isolado de cerceamento à liberdade de opinião na China. Existem muitos outros. O famoso diário na Internet "Milk Pig", de uma jornalista da cidade de Cantão, sul do país, também foi vítima de censura.

Outro blog censurado: "Pro State in Flames". O responsável pelo blog é um repórter de Pequim. Ele denunciou, no final de 2005, a demissão de vários redatores-chefes do jornal "The Beijing News". O servidor diz expressamente: não é possível acessar o blog "por razões que não são técnicas".

A China é o segundo país do mundo em número de internautas - 110 milhões. Só perde para os EUA. O governo aumentou o controle aos meios de comunicação. A internet, nos últimos anos, tornou-se um dos principais alvos. Isto porque revelou-se um dos mais eficientes veículos para a difusão de idéias. Para os burocratas chineses, isso é muito perigoso.