Capote, o filme, é denso. Baseado na biografia do escritor, não se trata de simples divertimento. É um filme para reflexões sobre jornalismo e a ética da profissão. Por isso, é oportuno e atual.
O autor da obra-prima "A Sangue Frio" almejava - a todo custo- o sucesso, o reconhecimento. Talvez mais que tudo isso: a imortalidade. Ele lutou de maneira alucinada, obcecada, para ser alçado ao panteão dos escritores do século XX.
Para atingir seus objetivos, como revela muito bem o filme, não interessava os meios. Ele passou por cima de convenções, de regras, dos princípios éticos da profissão. Envolveu-se emocionalmente com suas fontes. Mentiu, trapaceou, subornou. Tudo em nome da arte, da trama perfeita, moldada para o seu figurino.
Capote, sem dúvida, é uma personalidade complexa. Por isso, tentar analisar apenas o lado "canalha" do escritor é cair no reducionismo. Filho de mãe álcoolatra, ele adotou o sobrenome (Capote, de origem portuguesa) do padastro.
A obsessão pelo sucesso, pelo reconhecimento público, escondia a sua fragilidade emocional. Era um solitário, narcisista, convivendo com os fantasmas da infância abandonada. Este, possivelmente, um dos principais pontos de identificação com um dos asssassinos da família Clutter (Perry Smith), tão bem representado no filme.
O seu jeito afetado, a sua homossexualidade, tornavam-no uma figura ímpar. Os holofotes voltavam-se para ele nas rodas sociais que gostava de frequentar. Não era um escritor muito prolífico, mesmo assim escreveu dez livros, entre peças de teatro, romances e perfis jornalísticos.
Após o clássico "A Sangue Frio", que concluiu em 1965, revolucionou o jornalismo policial. Ele reivindicava para si a primazia de ter inaugurado um novo gênero literário: o romance de não-ficção. Se não o fez, com certeza escreveu uma das obras mais significativas desta escola, que também ficou conhecida como "novo jornalismo".
Capote, ao narrar um fato que poderia ficar restrito à crônica policial - o massacre da família Clutter-, em fins de 1959, construiu densos perfis psicológicos. O livro revela, ainda, a face mais sombria do "sonho americano" no pós-guerra. De um lado, seres incompreendidos, revoltados, marginalizados; do outro, a família burguesa, religiosa, conservadora, cumpridora de sua missão social, realizada financeiramente. Como pano de fundo, um país fraturado.
Em "A Sangue Frio", Capote utiliza-se de sua memória prodigiosa - que ele próprio não se cansa de exaltar- para narrar fatos com uma impressionante riqueza de detalhes. Na sua prosa, nada passa, nada falta. A precisão técnica, matemática, cirúrgica, orienta o texto. Só em pesquisa, o livro consumiu um ano e contou com o auxílio da competente escritora Harper Lee.
Não é de espantar que a obra tenha consumido seis anos para ser escrita. Mas isso esgotou o autor. Levou-o à esterilidade literária. De 1965 até a sua morte, em 1984, portanto, quase duas décadas, ele não publicou mais nada. Teve um fim trágico: morreu debilitado pelo álcool e drogas.
Truman Capote, um dos principais ícones da literatura de não-ficcão, deu uma pista sobre o seu destino, ao dizer o seguinte: "Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda a vida a um senhor nobre porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também dá um chicote; e o chicote se destina apenas à auto-flagelação... Estou aqui sozinho na escuridão da minha loucura, sozinho com meu baralho -e, é claro, o chicote que Deus me deu".